Um novo caminho
UM SONHO
Sendo jogado contra uma parede, sofrendo espancamentos, abusos, dentro daquele depósito
velho da escola, ninguém escutava meu socorro, ninguém tinha piedade de mim, eu era fraco.
Quando finalmente cansaram de mim, eu estava lá jogado completamente nu, pensando que
nunca fiz nada contra eles e que, por isso, eu não tinha outra saída a não ser a morte. Me
levantei, vesti minhas roupas e saí do depósito, caminhando pela estrada vi um caminhão e
me decidi, quero morrer!
Acordando suado, Jean se deu conta de que foi um sonho – Que tipo de sonho merda foi
esse? – segurando sua cabeça – Foi tão real, pensei que realmente fosse ser atingido por um
caminhão, no caso eu era outra pessoa... Será que é porque estou muito cansado esses dias?
Ou será que meu dia vai ser tão merda quanto esse sonho? – Pegando seu celular para olhar a
hora – Tenho que ter cuidado hoje... Nossa, já está tarde!! – Se arrumando apressadamente
Jean vai para seu trabalho.
Jean era um garoto de 18 anos, no qual foi deixado pela mãe com seu pai extremamente
abusivo , seguidamente também abandonado pelo pai, Jean teve que seguir com sua vida
sozinho, buscando trabalho para poder pagar suas dívidas, ele não tinha tempo para pensar
nessas coisas, tendo que fazer tudo que podia para continuar vivendo e lutando para
sobreviver cada dia.
- Ok, ok! Já é suficiente! – gritou o treinador.
- Estou surpreendido Jean, está melhorando a cada dia.
- Ha ha, é porque estive treinando semana passada. – Disse Jean coçando a cabeça.
- Entendo, é muito difícil encontrar alguém como você – falou o treinador com os braços na
cintura – Normalmente as pessoas que não entendem de boxe e buscam um emprego aqui,
acabam desistindo no mesmo dia.
O treinador pegou o envelope com o dinheiro e entregou a Jean – Aqui está seu pagamento.
- Obrigado por tudo treinador – disse pegando o envelope.
Jean saiu do local seguindo seu caminho para casa – Em pouco tempo, poderei quitar todas as
minhas dívidas! – Pensando – Deveria pensar no que vou fazer depois de quitar todas elas, a
única coisa que posso fazer é boxe, talvez deveria seguir esse caminho – Jean olhando para o
lado vendo uns estudantes conversarem pensou – Acho que foquei tanto em pagar minhas
dívidas que esqueci que meu sonho quando era criança era poder ir para a escola...
Caminhando pela faixa de pedestres, Jean ainda pensava em se preparar para ir à escola, mas
ao olhar para o lado se deparou com um caminhão vindo em sua direção, então no mesmo
instante, lembrou-se que tinha que ter estar mais atento neste dia, mas a única coisa de errada
que fez foi se distrair pensando em seus planos para o futuro, mas ainda assim, com o
péssimo rumo que sua vida levaria após isso, queria continuar vivendo.
OUTRO CORPO
Ao acordar, Jean percebeu que estava em um hospital – Mas o quê... Ainda estou vivo? No
lado de sua cama tinha uma mesinha com um espelho, Jean se olhou, mas parecia confuso, se
olhou novamente – Só pode ser piada... – começou a fazer movimentos estranhos na frente do
espelho para ver se era ele mesmo fazendo se movendo – Não pode ser... – Tocando no seu
rosto gritou – Quem é você?!
Levantou da cama correndo até o banheiro, ao se deparar no espelho pensou – Esse realmente
sou eu? – Jean percebeu que seu rosto era parecido com o garoto do seu sonho, era mais
baixo que o normal, possuía cabelos escuros e olhos claros – O que está acontecendo?! –
Começou a se lembrar que foi atropelado por um caminhão, mas não sabe o que aconteceu
logo depois – Talvez meu rosto foi desfigurado e tiveram que fazer uma cirurgia plástica...
Não, não pode ser isso... – se sentando na cama novamente – Isso não faz nenhum sentido, eu
realmente estou dentro do corpo desse cara? Não tem lógica! - Se estou neste corpo, quer
dizer que o acidente que aconteceu no meu sonho foi de verdade? Mas ainda assim por que
estou neste corpo?! Será que foi porque nós dois fomos atropelados por um caminhão? Ou...
Porque eu pensei que queria continuar vivendo e a vida me deu uma segunda chance?
Agachado no chão, Jean tenta achar uma solução para seu problema – Por quê esse cara
queria morrer? O que aconteceu com meu corpo? Estou confuso, que merda eu tenho que
fazer agora? – Jean coça sua cabeça, anda pelo quarto e chega em uma solução – Droga! Não
existe uma solução para isso, se eu contar para alguém, é 100% de certeza que vão me achar
louco. O que tenho que fazer agora é... – Jean olha para a janela – Seguir em frente com essa
situação.
DIAGNÓSTICO
- 3 meses? – perguntei assustado.
- Sim... é difícil de acreditar, mas você ficou inconsciente por 3 meses depois do acidente em
fevereiro. – respondeu o doutor. – Você não apresentou sinais de danos cerebrais, exceto
uma leve hemorragia cerebral, você também não mostrava sinais de que iria acordar, era
como se não quisesse.
Sentado olhando para o doutor, Jean apenas pensava o quão isso era estranho, como se
estivesse acordado logo após o acidente, mas estava dormindo por 3 meses. Ao olhar para seu
lado, percebeu que tinha um casal – Seriam esses os pais desse tal de Arthur? – pensou Jean. -
Pelo que você me contou, não se lembra de nada, mas poderia me dizer se lembra de algo,
qualquer coisa?
- Bom, como eu disse eu não me lembro absolutamente de nada, de quem sou, da minha
família, do meu passado, nada. – Suspira Jean.
- Isso parece ser um caso de amnésia retrógrada, e parece ser bastante severa se pararmos
para olhar sua situação.
- Não, não pode ser! – Grita a moça que parece ser a mãe de Arthur. – Ele sofreu esse
acidente e ainda assim, tem que passar por tudo isso, é tão cruel para ele, por favor me diz
se isso é certo doutor!
- Eu sinto muito, mas é tudo que posso fazer neste momento... – Diz o doutor anotando em
seu caderno. – A porcentagem de pacientes com este problema e que recuperam suas
memórias é muito baixo... Por favor, sejam pacientes, Arthur pode se sentir mais confuso se
ver seus pais tão pressionados, tratem de cuidá-lo e ajudá-lo a recuperar suas memórias.
Ao sair da sala, a mãe olha para Arthur chorando, enquanto o marido tenta acalmá-la. -
Droga, isso é tão chato, o que deveria dizer? É tão estranho ter alguém que se preocupe
comigo. – Pensou vendo aquela situação.
Já calma, a mãe pergunta – Você não lembra mesmo da gente?
- Eu sinto muito, mas eu realmente não lembro de nada. – Diz olhando para o chão.
A mãe abraça Jean – Não estamos te culpando, está tudo bem se não se lembra, só de ter
acordado me deixou muito feliz, vamos pensar nas outras coisas com mais calma, certo? Nós
te amamos muito!
Jean se sentia culpado e ao mesmo tempo não, pois não tinha possibilidade de lembrar deles,
a única coisa que podia fazer era seguir atuando como seu verdadeiro filho.
Entrando no carro, todos foram o caminho inteiro em silêncio, Jean ainda estava pensando o
que estava por vir, como era sua nova casa, como vai ser sua vida daqui em diante. -
Chegamos, já pode descer do carro. - disse a mãe de Arthur.
- Ah, sim!
Jean abriu a porta do carro, olhando para a imensa casa pensou - Acho que tive sorte de poder
morar em uma mansão dessas, já que nunca tive uma.
Entrando em casa sua mãe grita - Alan, desce aqui, seu irmão chegou!
- Irmão? Esse garoto tem um irmão? - Pensou Jean.
O irmão desce correndo em direção à Arthur e o abraça. - Que bom que você voltou, Arthur!
Que bom que está vivo! - com as mãos no ombro de Arthur - Tem ideia do quanto estou feliz
que você tenha acordado?
- Jean olha para Alan - Ele é seu irmão menor? Se parecem um pouco.
- Alan, lembra do que falei para você pelo telefone, seu irmão perdeu a memória, ele não
lembra de você.
- Eu entendo, você não lembra mesmo né? - Alan ainda segurando as mãos no ombro de Jean.
- Não, desculpe…
- Apesar de sempre estarmos juntos, estou mais impressionado do que imagina. - Alan sorri
timidamente - Mas ainda assim, não se preocupe, vou te ajudar a lembrar das coisas! Me
pergunte o que quiser.
- Ah, bom… Obrigado. - Jean encarava o garoto, ele parecia um pouco estranho. - Acho que
estou imaginando coisas.
- Alan, cuide do seu irmão, terei que ir à escola resolver uns assuntos relacionada à ele. -
Disse a mãe já saindo pela porta.
- Não se preocupe, ajudarei ele! - Disse o garoto olhando para a mãe.
Os dois subiram as escadas, neste momento, Jean sentiu que o ambiente ficou mais pesado,
talvez estivesse pensando demais.
- Aqui é seu quarto Arthur, entre logo! - Disse Alan com um olhar falso.
- Ainda agora estava feliz comigo… Esse cara é maluco? - Pensou Jean encarando o garoto.
- O que está fazendo? Não vai entrar?
- Ah, sim… - Caminhando em direção ao quarto pensa - Será que estou exagerando em
pensar nisso?
- Seu lixo perdedor. - Disse Alan enquanto Jean passava pelo seu lado.
Jean olha para o garoto, confirmando o seu pressentimento.
- Devia ter morrido naquele acidente, por que você teve que sobreviver? - Disse Alan
enquanto apoiava sua mão no ombro de Jean. - Queria voltar a ter uma vida de merda? Ou
talvez você goste de ser tratado como um lixo? Deveria ter pensado no seu irmão, em ter
que ir à escola com um perdedor como você.

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